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Eugenio de Andrade
Portugal
Primeiramente
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha
almofada, sem o teu peito liso e claro como um
dia de vento, e começo a erguer a madrugada
apenas com as duas mãos que me deixaste, hesi-
tante nos gestos, porque os meus olhos partiram
nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te
procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgi-
das onde tu não passas, a solidão aberta nos
dedos como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e
desfolho-a lentamente, até que outra boca - e
sempre a tua boca - comece de novo a nascer
na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração
inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto
lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.
in: As Palavras Interditas- 5ª edição, Porto, 1978
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